Por Hilário Dick –
Publicado originalmente no Site da PJ Nacional
NO RITMO DO XI ENCONTRO NACIONAL DA PASTORAL DA JUVENTUDE EM MANAUS
Uma crônica pobre, mas de assunto bonito
18 a 25 de janeiro de 2015
Hilário Dick
![]() |
| foto retirada do site da PJ NACIONAL (pj.org.br) |
Quando
embarcava de volta para casa, em Goiânia, meu coração estava
mexido. Não chorei mais porque as “aduanas” implicaram com meus
suspensórios e eu resisti.
Uma
emoção forte, vindo de várias vivências, quiseram explodir em mim
e chorei às escondidas. Imaginem um idoso, de quase 78 anos,
chorando em público… Tinha estado em Goiás, rezando com um grupo,
a mística do sabor e da resistência. Inspirados no lugar bíblico
Jerusalém, caminhamos levados pelo mistério de alguns verbos: ver e
olhar, caminhar, falar, sentir e fazer.
Em
Goiânia fiquei hospedado com um amigo de muitos anos: Lourival
Rodrigues da Silva, envolvido numa quimioterapia infernal por causa
de um câncer. Por vezes estas e outras dores quase nos derrubam.
Isso foi em Goiânia e Goiás onde, entre outros amigos especiais,
estava o Geraldo, a Carmem e o Berg que teve o azar de torcer o pé
querendo ajudar-me no carregamento de minha mala que levava um monte
de coisas inúteis. Goiânia é um lugar onde se ama a juventude e um
lugar em que pessoas de Igreja enxotam juventudes.
Viera
de Brasília, onde tinha ido para não fazer nada com a número 1 de
minha vida (Raquel) e o “sapeco” (como diz a Luara, filha de
Joadir e Janete) chamado Joaquim. Em Brasília fui aluno de uma
escola particular de geriatria… É que eu desejava aprender de novo
a ser avô. Como disse, não fiz nada, mas consegui encontrar-me com
gente de tempos passados (agora todos grandes): Adriano (cego que
assou churrasco), Alsimar (além de outras coisas, criando cabras),
Janete que recordou muitas coisas vividas, Sueli (a esposa de Adriano
e mãe de Edu), Edgar (que pensa em casar), Ernani que é de Caxias e
há séculos eu não via, Leandro o mesmo de sempre, trabalhando no
Portal da ANEC e não sei quem mais, a não ser a querida Larissa que
achei mais linda ainda.
Antes,
eu estivera em Manaus, de 21 a 25 de janeiro, no XI encontro Nacional
da Pastoral da Juventude. Fui lá de enxerido, tendo a passagem
custado uma boa briguinha com meu confrade encarregado das finanças.
Encontrei o pessoal todo na manhã do dia 22/1, na oração da manhã,
na qual tive que falar umas poucas coisas, com tempo marcado. Disse
que não vinha para falar, mas ver a rapaziada, ver o horizonte, a
utopia e a juventude como realidade teológica. Depois que voltei
para casa, encontrei um papel onde anotara algumas ideias que deveria
dizer, caso me dessem a palavra. Antes da viagem, eu escrevera que
“eu vim para contemplar e ver”.
Queria
ver se aí tinha corações grandes para abraçar o Reino, queria ver
se aí tinha gente com vontade de construir comunidade e se havia
coragem e lucidez para enfrentar diversos diabos: o diabo do egoísmo,
do ódio ao pobre, da divisão, da manipulação, da mentira, da
corrupção e outros diabos. Eu anotara também que devia dizer que o
testemunho é que vale; que a galinhagem não leva à nada; que a
importância do Projeto de Vida continua em pé e que não tivessem
medo de amar a identidade pejoteira, de verdade, assim como a Laisa e
o Luis Duarte parece que falaram.
Do
que eu vi e senti do Encontro Nacional tentarei dizer pequenas
coisas. O Encontro foi uma coisa linda e significativa: de embevecer
e de assustar. Direi pequenas coisas:
1.
O Encontro foi bom. Foi um verdadeiro banho de poesia, de mística,
de arte, de juventudes, de adolescências, de acolhida para toda a
Pastoral da Juventude do Brasil. Discutiram-se assuntos sérios,
alguns de forma bem provocadora. As juventudes reunidas, vindas de
todos os cantos do Brasil tomaram um banho e deram um banho em Manaus
e na Igreja. Encontro bom é onde se pensa, se ri, se dança, se
troca partilhas, se descobre, se aprofunda, se penetra no horizonte e
na utopia. Manaus foi simbólica; o encontro das águas foi
simbólico; a presença desconcertante de algumas autoridades foi
simbólica; ficou claro que o serviço é mais poético que o poder.
2.
Fomos levados a viver, no XI Encontro Nacional da Pastoral da
Juventude, o louco mundo do dionisíaco, com suas seduções onde,
mais do que a razão, a organização, a postura de militantes dos
anos oitenta, foi substituída pelo mundo da arte, da dança, da
questão de gênero, do encontro erótico do encontro das águas do
Solimões e do Rio Negro, da mística, da poesia, mesmo que isso
significasse igualmente uma linda caminhada dos mártires. Mesmo
abafados pelos prédios da burguesia, os gritos, os cantos, as
reivindicações da caminhada dos mártires foram aos ares,
misturados de Pai-Nossos e Ave Marias. Dos prédios altos, quase
ninguém quis ver o que acontecia lá em baixo, na rua.
3.
A coisa mais inesperada do Encontro foi o reconhecimento do trabalho
pedagógico e formador da Pastoral da Juventude. Depois de tantos
anos de perseguições, desprezos, ironias, proibições, negações
de verba e tanta coisa, além de ouvir de um dos bispos da Comissão
Episcopal de Pastoral para a Juventude que “a Pastoral da Juventude
é a maior escola de formação de lideranças de Igreja no Brasil”,
foi bom. Maravilhoso, contudo, foi receber uma carta da Papa
Francisco dizendo que a Igreja também ama vocês e por isso lhes
peço que não se deixem abater pelas coisas que possam chegar a
ouvir da juventude; em todo tempo histórico se falou pejorativamente
dos jovens, mas também em todo tempo foi essa mesma juventude que
dava testemunho de compromisso, fidelidade e alegria. Nunca percam a
esperança e a utopia, vocês são os profetas da esperança, são o
presente da sociedade e da nossa amada Igreja e sobretudo são os que
podem construir uma nova Civilização do amor. Joguem a vida por
grandes ideais. Apostem em grandes ideais, em coisas grandes; não
fomos escolhidos pelo Senhor para coisinhas pequenas, mas para coisas
grandes!
Numa
das plenárias ouvi coisas que nunca ouvira ter sido dito em
plenária. Muita coisa se relacionava com a homoafetividade,
completando o cenário que se vivia desde as mais diversas periferias
até aquele local da Ponta Negra onde se realizou a celebração da
abertura com cores, movimentos, sons, mantras, estribilhos,
preocupações, amores e raivas que pareciam brotar do fundo das
águas das juventudes.
4.
Só quem acompanhou de perto os milhares de conflitos da Pastoral da
Juventude, dentro e fora da Igreja, pode imaginar o que significaram
alguns pronunciamentos num Encontro Nacional. Claro que ao lado dos
que vibraram e vão vibrar, há e haverá os que rangem os dentes,
chegando a dizer que a carta foi forjada, que o Papa, de novo, falou
demais… A alegria de algumas afirmações nos reportava para a
história, quando apareciam documentos como o Marco Referencial da
Pastoral da Juventude, o documento fundamental Evangelização da
Juventude, Desafios e Perspectivas Pastorais ou, então, Civilização
do Amor – Projeto e Missão. Encontrões, marchas, reivindicações,
bandeiras de luta, místicas de fazer as estrelas pularem de alegria,
tudo estava lá. O que importa é que foram palavras confortadoras e
de alento para um rebanho jovem acostumado às chicotadas, mas que
sabe do esforço que faz em muitas partes.
5.
Como escrevi numa outra vez, o sabor e a resistência sempre foram os
condimentos da sopa da vida. A sopa, contudo, por vezes, tem gosto de
Belém, de Nazaré, de Cafarnaum, de Betânia, Samaria e dos
diferentes gostos e sabores que têm os momentos que vivemos. Embora
os sabores estejam em cada um dos “momentos” e de nossos
“acampamentos” o sabor e a resistência mais suada, no entanto,
situa-se em Jerusalém. O encontro de Manaus foi Belém, foi
Cafarnaum, foi Betânia, foi Genezaré… O encontro de Manaus foi
manauara. Foi reconhecimento. Se os olhos dos/as quase 800 jovens
presentes brilharam, brilharam muito os olhos das dezenas de
assessores/as que vinham de muitos lugares e deixaram um recado forte
e juvenil ao clero de todo o Brasil. Entre outras coisas, eles dizem:
Machuca o coração quando ouvimos de jovens engajados na vida das
comunidades, partilhas que dão conta de revelar as barreiras criadas
por presbíteros de nossa Igreja à caminhada e processo de formação
na fé de nossas/os jovens. Sabendo de nossas limitações e
fragilidades no acompanhamento às/aos jovens, com humildade pedimos
perdão por nós e por nossos irmãos presbíteros por tantos espaços
fechados dentro da Igreja.
6.
Em meio ao desencanto e ao conservadorismo de muitos tipos, o
Encontro de Manaus conseguiu encantar. Bastava ver como os/as
adolescentes que ajudavam na infraestrutura pulavam de alegria. Não
se negam os conflitos e as dificuldades, mas o que se via eram
sorrisos, belezas, gente descobrindo que o grupo é o lugar da
felicidade do jovem. Apesar das dores, dos extermínios (em Manaus
foram mortos, naqueles dias ao menos dois jovens), apesar da
tendência autoritária, grosseira, violenta, individualista, de
desprezo pelos pobres e até pelo Brasil, Manaus conseguiu ver, nesta
semana, uma juventude bonita que sabe que é mais bonita quando tem
causas para se lutar por uma civilização do amor.
7.
Disseram-me que o pouco que falei em Manaus teve toada simeônica,
isto é, de Simeão, o velho do Evangelho que, quando viu Jesus,
disse que podia partir em paz (Lucas 2, 29). Sei que sou indigno da
comparação, mas aceito por vir da boca de quem veio. Se os pés
estão pesados, é muito bom saber que em Manaus os sonhos são
leves, bonitos, misturados de águas, índios, horizontes, matas,
rezas, esperanças e utopias.

Nenhum comentário:
Postar um comentário