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Roda de Conversa relembra lutas da Comunidade do Mapiri

Carlos Eduardo Joseph

O grupo de jovens Ágape, da Comunidade Menino Jesus/Mapiri, realizou uma roda de conversa entre gerações. O bate papo denominado “Dias de lutas, dias de glória” ocorreu no domingo (23/02/2014) na Igreja do Menino Jesus e teve como objetivo relembrar fatos marcantes da luta por melhores condições de vida no Mapiri. Os estimuladores da conversa foram Manoel Godinho e José Sousa, pessoas que viveram o período de luta pelo território. Outros comunitários também participaram do evento.
Roda de conversa: Encontro de gerações

Manoel Godinho relembrou que antes de ser habitado o local onde hoje é o bairro Mapiri era uma área degradada pela exploração de areia e pedra para construções e que os primeiros moradores começaram a ocupar a área de forma organizada e com estratégias bem definidas para conquistar o terreno. “Não foi uma ocupação desordenada, havia uma organização e todos os dias as pessoas se reuniam para definir o próximo passo. Lembro que sempre a polícia vinha e derrubava as construções, por isso as pessoas já deixavam as armações das casas prontas em um terreno no bairro vizinho e à noite armavam tudo bem rápido, mas no outro dia as casas eram derrubadas novamente. E assim foi, com muita persistência” lembra Godinho.
A direção do Hotel Tropical (onde hoje é o Hotel Barrudada) se dizia dona da área, porém, de acordo com José Sousa, eles nunca apresentaram documentação. Seu Zé, como é conhecido, conta ainda que a repreensão ficou maior quando decidiram fazer a Igreja Católica “Quando decidiram fazer a Igreja aí sim que a polícia não saía do bairro, muitas pessoas inclusive foram ameaçadas de morte, mas não desistiram. A primeira igreja começou a ser levantada em alvenaria onde hoje é o mercado (mercadinho de peixe do Mapiri). Foi muito esforço para conseguir o material, mas antes de concluir o prefeito da época, Ronaldo Campos, mandou tratores e a polícia derrubar tudo” Conta Seu Zé.
Igreja do Mapiri hoje: Padroeiro Menino Jesus
Manoel Godinho afirma ainda que as dificuldades eram do tamanho da vontade do povo. “Muitas outras igrejas foram levantadas e derrubadas. As pessoas recebiam a polícia cantando, mas não reagiam. Cada parede que ia ao chão era uma vibração que parecia uma festa, era uma forma interessante de protestar. Mas era só a polícia deixar o bairro que lá ia aquele povo  alegre e cantando em uma procissão para pegar o material e levantar novamente a igreja” lembra Godinho.
A comunidade católica do Mapiri atuava de acordo com o princípio de que o Reino de Deus deve ser construído onde as pessoas vivem e a atuação social da Igreja deve ser no sentido de melhorar a vida das pessoas. “O prefeito Ronaldo Campos não queria deixar construir a Igreja de jeito nenhum, pois sabia que essa forma de organização, baseada na Teologia da Libertação e em favor dos pobres, causaria muito incomodo para os poderosos de nossa sociedade” declara Carlinho Joseph, morador do bairro.

Além da conquista do território muitos outros fatos foram relembrados durante a roda de conversa. A luta pelo fim da pesca predatória com bombas no Lago do Mapiri, as manifestações contra o esgoto do Hotel Tropical, a luta por água encanada e até mesmo o direito ao transporte público “Uma vez nós prendemos um ônibus e dissemos 'só vamos liberar depois que o dono da empresa negociar a ampliação dessa linha de ônibus com a gente’'” conta Godinho. Conquistas que só ocorreram com atuação firme da comunidade católica.


O Posto de Saúde
Outro fato que mereceu destaque durante o bate papo foi a construção do Posto de Saúde. Em vez de esperar pelo poder público os próprios comunitários “arregaçaram as mangas” e construíram o prédio, que pertence a Igreja. “Com muitas promoções e mutirões nós conseguimos todos os materiais, do piso até o teto, e levantamos esse prédio. Homens, mulheres e crianças, todos ajudaram. Foram muitos finais de semana no sol quente pra levantar isso” afirma Zé Sousa.
Manoel Godinho lembrando lutas da Comunidade do Mapiri
De acordo com Manoel Godinho a vontade de construir o Reino de Deus para todos foi o que motivou os comunitários. “Nós podíamos ter feito como outras Igrejas que hoje tem secretarias, casas paroquiais e outras coisas, mas não. Qual era a necessidade? O povo precisava de saúde. Então fizemos o prédio e dissemos: 'tá aqui Prefeitura, não tem mais desculpa. Agora tragam médicos e remédios para o povo'. Não cobramos um centavo de aluguel. Não sei se é o certo, porque o prédio precisa de manutenção e esse dinheiro poderia ajudar, mas foi isso que fizemos”, declara Godinho.
Além de relembrar fatos marcantes da luta do bairro a roda de conversa também serviu de inspiração para os mais jovens. Será que hoje não temos problemas em nossa comunidade? Como os fatos vividos pelo povo naquela época podem estimular os jovens hoje a lutar por um mundo melhor? Qual a relação da busca do Reino de Deus com melhorias em nossa sociedade? No evento ficou claro que aquele povo começou a responder isso, agora chegou a nossa vez de construir parte da história.

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